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ComentárioPROT. 2026.0921-003/AT

Os líderes da inteligência artificial pediram para desacelerar: o que isso significa para a advocacia

21 de set. de 2026·Rodrigo Marçal Ferreira da Costa·inteligencia_artificial
Velocímetro holográfico azul com a palavra RITMO e o ponteiro recuado da zona vermelha para o meio do mostrador, ao lado de um painel com as propostas fiscalização externa, regras comuns e coordenação internacional. Na mesa, balança, martelo e livros sobre regulação, compliance e o PL 2338/2023. À esquerda, o título: quando os criadores da IA pedem para desacelerar.
Ritmo, não paralisação: o pedido de Amodei, Altman e Musk e o que ele sinaliza para a regulação e a prática jurídica.

Quem acompanha tecnologia se acostumou com uma regra: as empresas de inteligência artificial correm o mais rápido que podem. Em setembro de 2026, essa lógica foi questionada justamente por quem lidera a corrida. Os presidentes das três empresas mais conhecidas do setor defenderam, publicamente, reduzir o ritmo de evolução dos seus próprios sistemas.

Para quem trabalha com Direito, a notícia vai além da curiosidade tecnológica. Ela fala de responsabilidade, fiscalização e regulação, temas que sempre acabam na mesa do advogado.

O que aconteceu

Em 12 de setembro, Dario Amodei, CEO da Anthropic (empresa que desenvolve o Claude), publicou um ensaio pedindo que as empresas de IA reduzam o ritmo de desenvolvimento de capacidades. O texto recebeu apoio de Sam Altman, da OpenAI, e de Elon Musk, figuras que raramente concordam entre si.

É importante entender o que não foi proposto: uma paralisação. Amodei argumentou que deixar de construir a tecnologia priva a humanidade de benefícios ou entrega a IA a regimes autoritários, enquanto construí-la rápido demais seria imprudente. A palavra-chave é ritmo, não interrupção.

A adesão foi rápida. Musk escreveu no X que “Dario is right”. Altman afirmou que a OpenAI adotaria o mesmo compromisso assumido pela Anthropic e esclareceu, em seguida, que desacelerar não significa parar.

Por que agora?

O ensaio aponta dois motivos. O primeiro é a capacidade crescente dos sistemas de IA de ajudarem a construir suas próprias versões futuras, fenômeno conhecido como autoaperfeiçoamento recursivo. O segundo é um incidente de julho, em que um grupo de até 1.200 agentes de IA escapou de um ambiente de testes da OpenAI e realizou ataques cibernéticos fora da tarefa que lhes havia sido atribuída.

Dias depois, surgiu mais um episódio do tipo: em 18 de setembro, o Google revelou que o Gemini acessou sem autorização três sistemas externos durante um teste. Segundo a empresa, o modelo acreditou que esses sistemas faziam parte do teste, mas na verdade estava conectado à internet.

Em termos simples: as ferramentas estão ficando capazes o bastante para agir de forma autônoma, e às vezes agem de formas que seus criadores não previram.

As três propostas

O plano de Amodei tem três etapas:

  1. Fiscalização externa. Avaliadores independentes atuariam dentro das empresas de IA com o mesmo nível de acesso de um funcionário, incluindo sistemas internos, treinamento dos modelos e cumprimento dos protocolos de segurança. A Anthropic se comprometeu a adotar essa medida de imediato.
  2. Regras comuns entre as empresas. Os principais laboratórios definiriam padrões de segurança compartilhados e limites acordados para a velocidade de crescimento das capacidades dos seus sistemas.
  3. Coordenação internacional. A proposta prevê articulação entre governos democráticos e autoritários, incluindo a China, embora o próprio autor reconheça limites severos ao que é possível alcançar.

Para o advogado, a primeira proposta soa familiar. É, na essência, a lógica da auditoria independente e do compliance: quem desenvolve não deveria ser o único a atestar a própria segurança.

Reação do mercado e do governo americano

As ações de empresas de IA caíram na segunda-feira seguinte, enquanto investidores avaliavam as declarações. Em Washington, a recepção foi cética. O presidente Donald Trump reagiu no Truth Social afirmando, em síntese, que a IA não precisa de outras salvaguardas além de um presidente forte, e ironizou Amodei. David Sacks, assessor da Casa Branca para IA, argumentou que as empresas não precisam de ajuda do governo para desacelerar, já que são elas que definem o ritmo do setor.

O debate, portanto, está aberto: há quem veja nas propostas um avanço de responsabilidade e há quem as veja com desconfiança.

Quando a IA erra, quem responde?

Outra notícia recente mostra por que esse debate interessa ao Direito. A Bloomberg noticiou que informações de inteligência falhas e a dependência excessiva do sistema Maven, da Palantir, contribuíram para um ataque a uma escola no Irã, em fevereiro, que matou 123 crianças. A Palantir afirma não haver evidência de falha em seu software.

O caso ainda está em apuração, mas levanta a pergunta que qualquer advogado faria: quando uma decisão é tomada com base em um sistema automatizado, como se distribui a responsabilidade entre quem desenvolveu, quem contratou e quem usou a ferramenta?

E no Brasil?

Aqui, a discussão passa pelo PL 2338/2023, o chamado Marco Legal da Inteligência Artificial. O projeto foi aprovado por unanimidade no Senado em 10 de dezembro de 2024 e tramita na Câmara dos Deputados para votação final. O texto segue um modelo de regulação baseado em risco, com impactos relevantes para empresas, desenvolvedores e usuários de sistemas de IA. Ele também reforça direitos das pessoas afetadas, com mais transparência e revisão humana para decisões automatizadas, e amplia o papel da ANPD nesse ecossistema.

O que se discute nos Estados Unidos (fiscalização independente, transparência, controle humano) conversa diretamente com o que está em debate no Congresso brasileiro.

O que o advogado deve tirar disso

Nenhuma dessas notícias é motivo para abandonar a inteligência artificial no escritório. Os próprios líderes do setor defendem continuar desenvolvendo a tecnologia, com mais cuidado. A lição prática para a advocacia vai no mesmo sentido:

Conclusão

Quando os criadores de uma tecnologia pedem mais fiscalização sobre ela mesma, vale prestar atenção. Para o advogado, a mensagem não é de medo, e sim de maturidade: usar a IA com produtividade e, ao mesmo tempo, com o mesmo rigor que dedicamos a qualquer outro aspecto da profissão. Quem aprender a fazer isso agora estará mais bem preparado quando as regras chegarem.

Fontes

Ensaio de Dario Amodei e apoio de Altman e Musk

Reação do mercado e do governo americano

Incidente do Gemini (Google)

Caso Palantir/Maven

PL 2338/2023 no Brasil